Não é lindo, querida?

Olá, o meu nome é Teresa e sofro de depressão crónica.

De todos os dias que já passaram, hoje é o dia mais estranho. A minha cabeça não esta bem e ninguém compreende. Dizer que as coisas melhoram mais cedo ou mais tarde é fácil, mas esquecem-se do pormenor do significado crónico. Para quem ainda não sabe ou está cego pela sua felicidade, significa parra a vida.

Não me queixo como todos devem imaginar, uma pessoa depressiva não significa alguém que passe os dias a lamuriar de quão é infeliz, pelo contrário é tão reservada que deseja nunca ter existido.

Os meus dias são passados a olhar para a janela, porém não admiro as belos malmequeres brancos e amarelos, estão bem cuidados e vivem na sua plenitude calma. Vejo as gotas da chuva a cair e banharem a janela que nem lágrimas que caiem dos anjos dos céus e a relembrar-me que não tenho esperança.

As minhas noites são passadas deitadas na cama e a olhar para o teto, não sonho como qualquer rapariga que tem os seus simples devaneios de paixonetas por ídolos quase impossíveis de alcançar. Eu passos as noites acompanhada por insónias e solidão.

Escuto todos os dias a relógio passar e a cantar o seu tic e tac. Cada segundo que passa é mais um momento perdido na minha insignificante vida. Os ponteiros até poderiam ser silenciosos e isso seria mais prazeroso, pois nunca iria saber que tempo eu teria perdido a pensar no que a sociedade pensa ou deixa de pensar de mim.

Algo está na minha mente, está a bater-me como um martelo e a cravar um prego com o prepósito de não deixar sair. A minha pele gela ao sentir a minha mão passear pelas gavetas da casa de banho. Penso que encontrei uma maneira de parar a dor, de fazer a depressão ir-se embora. Para bem longe ela terá de ir e deixar-me respirar em paz.

Encontro o que necessito e suspiro entre lágrimas sofredoras. Já estou cansada de mais para batalhar estes tormentos interiores, preciso de descanso, de uma pausa do que se passa à minha volta. Um simples intervalo das opiniões da sociedade era o que mais precisava.

Já não tenho sítios para onde me esconder, então fico-me por deitar-me na banheira e vestida, deixo agora correr a água. Num movimento simples e delicado, deixo-me levar pelo frio da água e mergulhar as mãos, pulsos e braços nesta. O ardor sossega o meu coração que já não bate como antes, é lento e cansado.

Um pensamento passa pela minha cabeça….

“Não é lindo, querida?

Rasgar-te em pedaços

E deixar-te só com um sentimento, o alívio.

Bem-vindo ao Paraíso, querida.”

Disse-me a depressão…

Foi um pequeno adeus com belas palavras, foram sussurros doces para os meus ouvidos. Finalmente ela se vai embora…. Vai-me deixar só com os meus vagos pensamentos e com as minhas poucas lembranças de felicidade.

Consigo relaxar, os músculos adormecem e as dores por fim desaparecem. Sinto frio, mas por alguma razão estranha torna-se confortável. Consigo vislumbrar o vermelho que se mistura com a água, o cheiro não é intenso, mas de certo modo agradável.

“Não é lindo, querida?

Acabar com a dor

E deixar-te com a última expiração.

Bem-vindo ao Paraíso, querida.”

Fecho os olhos e deixo o meu último suspiro sair dos meus lábios.

Olá, o meu nome é Teresa e já não sofro de depressão crónica…

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